Variedades de café arábica cultivadas no Brasil: genética, história e escolhas no campo
Do Bourbon ao Catuaí, do Mundo Novo às cultivares resistentes à ferrugem, a diversidade genética do café brasileiro ajuda a explicar tanto a evolução da cafeicultura quanto as diferenças encontradas na lavoura e na xícara.

Quando se fala em café brasileiro, nomes como Catuaí, Mundo Novo, Bourbon, Arara e Icatu aparecem com frequência em embalagens, cafeterias, concursos de qualidade e conversas entre produtores. Eles não são apenas nomes comerciais. Identificam cultivares — materiais vegetais com características próprias, desenvolvidos, selecionados e estudados ao longo de décadas.
O Catálogo de cultivares de café arábica, publicado em 2022, define cultivar como o termo técnico utilizado para descrever uma variedade cultivada, agrícola ou agronômica. A publicação também chama atenção para uma distinção importante: embora “variedade” seja frequentemente empregada como sinônimo de cultivar, o termo possui significado próprio na classificação botânica.
Entender essa diversidade ajuda a compreender uma parte essencial do café. A cultivar interfere em características da planta, no comportamento agronômico, na adaptação ao ambiente, na resistência ou suscetibilidade a determinados problemas e também no potencial de qualidade da bebida.
Mas ela nunca atua sozinha.
O Brasil construiu um patrimônio genético do café
A história das cultivares brasileiras acompanha a própria evolução da cafeicultura nacional.
Segundo o catálogo, a primeira cultivar de café arábica plantada no Brasil foi Typica, introduzida no país em 1727. Bourbon Vermelho chegou posteriormente, no século XIX, e Sumatra, uma seleção de Typica, foi introduzida em 1896.
Um novo capítulo começou em 1932, quando o Instituto Agronômico (IAC) iniciou seu programa de melhoramento genético do cafeeiro. Nas décadas seguintes surgiram materiais que marcariam profundamente a cafeicultura brasileira.
Mundo Novo começou a ser desenvolvido pelo IAC no final da década de 1940 e foi disponibilizado para cultivo comercial em 1952. Catuaí nasceu do cruzamento entre Mundo Novo e Caturra, realizado em 1949, e suas cultivares de frutos amarelos ou vermelhos começaram a ser lançadas pelo IAC a partir de 1972.
Após a disseminação da ferrugem do cafeeiro no Brasil, no início dos anos 1970, diferentes instituições intensificaram programas de melhoramento voltados ao desenvolvimento de materiais resistentes à doença. Esse esforço contribuiu para a criação de dezenas de novas cultivares e ampliou consideravelmente as possibilidades disponíveis ao produtor.
Essa trajetória envolve uma ampla rede científica. O catálogo destaca a participação de instituições como IAC, Epamig, Fundação Procafé, IDR-Paraná, UFLA, UFV e Embrapa Café, entre outras. O Consórcio Pesquisa Café, criado em 1997 e coordenado pela Embrapa, reúne mais de 40 instituições de pesquisa.
O resultado é um patrimônio genético construído por décadas de pesquisa, seleção e experimentação.
90 cultivares — e isso não significa que existam apenas 90
A publicação apresenta as principais características de 90 cultivares de Coffea arabica resultantes do trabalho de diferentes programas de pesquisa.
Isso não significa, entretanto, que naquele momento existissem somente 90 cultivares de arábica no Brasil.
O próprio documento informa que havia 142 cultivares de café arábica registradas no Registro Nacional de Cultivares (RNC). Segundo os autores, apenas cerca de 40 eram utilizadas comercialmente em larga escala.
A diferença revela algo importante: a existência de uma cultivar não significa necessariamente que ela seja amplamente plantada.
Cada material possui características que podem torná-lo mais ou menos adequado a determinada situação. E é justamente aí que começa a decisão do produtor.
Não existe uma cultivar simplesmente “melhor”
A pergunta “qual é a melhor variedade de café?” parece simples, mas pode levar a uma conclusão equivocada.
Uma cultivar pode apresentar vantagens importantes em determinada região e não repetir o mesmo desempenho em outra. Altitude, temperatura, disponibilidade hídrica, fertilidade, sistema de produção, espaçamento, possibilidade de mecanização, incidência de doenças e objetivos econômicos interferem na decisão.
O próprio catálogo deixa clara essa lógica ao afirmar que seu objetivo é sistematizar características agronômicas e tecnológicas para auxiliar o produtor na escolha do material genético que melhor atenda às suas necessidades técnicas e econômicas.
Por isso, escolher uma cultivar é trabalhar com um conjunto de características, e não procurar um único atributo vencedor.
Mundo Novo: um dos pilares da cafeicultura brasileira
Mundo Novo ocupa posição histórica importante. Sua origem está associada ao cruzamento espontâneo entre Sumatra e Bourbon Vermelho. Desenvolvida pelo IAC, tornou-se base de materiais que seriam decisivos para a cafeicultura nacional.
O catálogo classifica Mundo Novo como material de porte alto, em contraste, por exemplo, com Catuaí, de porte baixo.
Na ficha de Mundo Novo IAC 376-4, a publicação destaca alto vigor vegetativo, excelente resposta à poda e facilidade para colheita mecanizada, além de registrar sua presença importante no Sul de Minas.
Já Mundo Novo IAC 379-19 é descrito como material de altíssimo vigor vegetativo, boa resposta à poda, facilidade de colheita mecanizada e ampla utilização em lavouras comerciais.
Mais do que uma cultivar histórica, Mundo Novo participou diretamente da formação de outro nome central do café brasileiro: Catuaí.
Catuaí: o encontro entre Mundo Novo e Caturra
Catuaí surgiu do cruzamento entre Mundo Novo e Caturra.
Essa combinação reuniu características genéticas que contribuíram para a formação de um grupo extremamente importante para a cafeicultura brasileira. O catálogo explica que as cultivares do grupo Catuaí são de porte baixo.
Entre elas, Catuaí Vermelho IAC 144 recebe um destaque extraordinário na publicação: é apresentado como a cultivar de café arábica com maior área plantada no Brasil, com ampla adaptabilidade, grande longevidade de produção e alta rusticidade. O documento informa ainda que as cultivares do grupo Catuaí possuem 75% dos genes oriundos de Bourbon.
Catuaí Vermelho IAC 99, por sua vez, é descrito como cultivar de ampla adaptabilidade, bastante cultivada no Sul de Minas, Alta Mogiana e região do Cerrado.
Isso ajuda a explicar por que o nome Catuaí se tornou tão familiar dentro e fora das propriedades cafeeiras.
Bourbon e sua relação histórica com cafés de qualidade
Bourbon ocupa outro lugar especial nessa história. Além de participar da genealogia de materiais fundamentais da cafeicultura brasileira, o grupo está fortemente associado à qualidade da bebida.
O catálogo é explícito ao afirmar que Bourbon Amarelo é referência para bebida de boa qualidade. Também aponta maior adaptação a regiões altas e de temperaturas mais amenas, embora registre seu cultivo em regiões mais baixas, como o Cerrado.
Para Bourbon Vermelho, a publicação informa utilização principalmente voltada à produção de cafés especiais e observa que, em geral, é cultivado em regiões de temperaturas mais amenas.
Isso não significa que a simples presença da palavra “Bourbon” no rótulo garanta uma bebida superior.
A cultivar representa o potencial genético. O resultado encontrado na xícara depende também das condições em que esse potencial consegue se expressar e das etapas posteriores da produção.
Portanto, Bourbon pode ser uma informação relevante para quem compra café — mas não deve ser interpretado isoladamente como certificado de qualidade.
Icatu e a busca por resistência à ferrugem
A ferrugem do cafeeiro mudou a história do melhoramento genético do café. Icatu é um dos exemplos dessa trajetória.
O material foi desenvolvido a partir de hibridação envolvendo Coffea arabica e Coffea canephora, com resistência à ferrugem, e posteriormente retrocruzado com cultivares de arábica, como Mundo Novo e Catuaí. Esse processo deu origem a diferentes cultivares do grupo Icatu.
Mas há uma distinção importante: não é correto transformar “Icatu” em sinônimo automático de resistência completa à ferrugem.
A ficha de Icatu Amarelo IAC 2944, por exemplo, o classifica como parcialmente resistente à doença. O mesmo material é descrito como de vigor vegetativo muito alto e elevado potencial produtivo, embora a publicação registre limitações observadas em algumas regiões e informe que, naquele momento, vinha sendo pouco recomendado para plantio.
Esse exemplo mostra por que é perigoso avaliar uma cultivar apenas pelo nome do grupo ao qual pertence. É preciso olhar para a cultivar específica.
Porte, maturação, vigor, doenças e produtividade: a genética aparece no campo
As diferenças entre cultivares não são apenas conceituais. Elas se manifestam fisicamente na lavoura.
O catálogo trabalha com características como porte da planta, diâmetro da copa, época de maturação, resistência à ferrugem, resistência a nematoides e outras doenças, vigor vegetativo, qualidade da bebida e produtividade.
Até uma característica aparentemente simples, como altura da planta, envolve genética e ambiente.
A publicação explica que o porte depende da interação entre características genéticas e condições de cultivo. Clima, espaçamento e tratos culturais podem influenciar a altura, embora, de maneira prática, as cultivares sejam classificadas principalmente em porte alto ou baixo.
Essas diferenças têm consequências concretas. O diâmetro da copa, por exemplo, interfere no espaçamento e na circulação de máquinas entre as linhas da lavoura.
Genética, portanto, não é um conceito distante da rotina do produtor. Ela participa das decisões práticas tomadas desde a implantação do cafezal.
E onde entra a qualidade da bebida?
Aqui é necessário evitar dois extremos. O primeiro é imaginar que a genética não interfere na qualidade. O segundo é acreditar que ela determina sozinha o resultado da xícara.
O próprio catálogo inclui qualidade da bebida entre os critérios utilizados para caracterizar as cultivares e trabalha com duas categorias: bebida “regular” e “diferenciada”. Para a classificação como diferenciada, os autores consideraram análises sensoriais de experimentos comparativos, resultados de concursos de qualidade e outras evidências relacionadas ao desempenho das cultivares.
Portanto, existe relação entre material genético e potencial de qualidade. Mas potencial não é destino.
A cultivar é uma das peças de um sistema muito maior.
Do nome no campo ao nome no pacote
Para quem compra café, conhecer a cultivar acrescenta uma camada de informação.
Quando um pacote informa “Catuaí”, “Bourbon”, “Mundo Novo”, “Arara” ou outro nome, ele oferece uma pista sobre a origem genética daquele café. Essa informação pode ser particularmente interessante quando aparece acompanhada de região produtora, origem, produtor, processo e outras características do lote.
Mas o nome da cultivar deve ser lido como parte da história do café, não como uma nota de qualidade.
Dois cafés da mesma cultivar podem apresentar resultados distintos. Da mesma forma, cultivares diferentes podem produzir excelentes cafés.
A informação se torna realmente valiosa quando ajuda o consumidor a entender o que está bebendo, em vez de funcionar apenas como mais um termo técnico na embalagem.
Uma história brasileira construída pela pesquisa
Talvez o aspecto mais importante dessa diversidade seja aquilo que ela revela sobre a própria cafeicultura brasileira.
As cultivares plantadas hoje não surgiram por acaso. Elas são resultado de décadas de seleção, cruzamentos, experimentação, observação em campo e trabalho científico conduzido por diferentes instituições.
O catálogo destaca que o melhoramento genético permitiu desenvolver materiais com características capazes de atender às necessidades de produtores de diferentes regiões e também às exigências de consumidores em diferentes mercados.
Essa diversidade dá ao produtor possibilidades de escolha. Permite procurar materiais mais adequados ao ambiente, ao sistema produtivo e aos objetivos da propriedade. Permite à pesquisa responder a problemas que mudam ao longo do tempo. E amplia as possibilidades encontradas por quem transforma o fruto cultivado no campo na bebida que chega à xícara.
Por trás de um nome aparentemente simples escrito no pacote existe, muitas vezes, uma longa genealogia.
Mundo Novo carrega Sumatra e Bourbon. Catuaí nasceu do encontro de Mundo Novo com Caturra. Icatu traz em sua história a busca por resistência à ferrugem. Bourbon atravessa gerações da cafeicultura e permanece associado à produção de cafés de qualidade.
É assim que genética, ciência, história e agricultura acabam se encontrando dentro de uma xícara.
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Redação Café em Pauta
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