Pular para o conteúdo
Café em Pauta
Do Grão à Xícara

Secagem: a etapa mais subestimada da cadeia

Retirar água parece simples. Na prática, temperatura, tempo, ventilação e uniformidade precisam ser controlados para que o café atravesse o pós-colheita sem perder o que foi construído até ali.

Redação Café em Pauta··11 min de leitura Compartilhar
Durante a secagem em terreiro, o café precisa ser acompanhado e revolvido para favorecer uma retirada de água mais uniforme.
Durante a secagem em terreiro, o café precisa ser acompanhado e revolvido para favorecer uma retirada de água mais uniforme.

Há uma imagem que se repete em muitas regiões produtoras.

Café espalhado sobre o terreiro. O sol alto. Pessoas revolvendo a massa. Fileiras que mudam de posição ao longo do dia.

Vista de longe, a secagem pode parecer uma espécie de espera.

O café foi colhido. Agora bastaria deixá-lo perder água até ficar pronto.

Não é tão simples.

O café chega ao pós-colheita como um produto biologicamente instável. Dependendo do processamento, ainda contém grande quantidade de água, e essa água precisa ser retirada até uma faixa em que o lote possa ser armazenado com segurança e estabilidade.

Mas retirar água rápido demais pode ser tão problemático quanto retirar devagar demais em condições inadequadas.

A secagem não é apenas uma etapa entre a colheita e o armazenamento.

É uma operação de controle.

E muito do que acontece nela só revelará suas consequências mais tarde.

Água demais para guardar

Um fruto recém-colhido contém muito mais água do que um café pronto para armazenamento.

Em trabalhos brasileiros de pós-colheita, valores próximos de 60% de umidade em base úmida são usados como referência para frutos recém-processados.

Em estudos e recomendações técnicas brasileiras, o café destinado ao armazenamento aparece frequentemente em torno de 11% a 12% de umidade em base úmida.

Essa redução muda radicalmente a estabilidade do produto.

Água disponível favorece atividade biológica, reações químicas e desenvolvimento de microrganismos. Quanto mais tempo o café permanece em condições inadequadas de umidade e temperatura, maior o risco de deterioração.

Por isso, secar é muito mais do que diminuir peso.

É conduzir o café de uma condição altamente perecível para outra em que ele possa atravessar armazenamento, beneficiamento, transporte e comercialização sem perder rapidamente aquilo que foi preservado até ali.

Nem todo café chega igual à secagem

Falar simplesmente em “secar café” esconde outra diferença importante.

O café pode chegar à secagem de formas bastante distintas.

No processamento natural, o fruto segue inteiro para a secagem, conservando casca, polpa e mucilagem ao redor das sementes.

Em outros processos, parte dessas estruturas pode ser removida antes da secagem, como ocorre nos cafés descascados, desmucilados ou despolpados.

Isso altera a quantidade e a distribuição da água no material e modifica a dinâmica do processo.

Um café natural, envolvido por todas as estruturas do fruto, não perde água exatamente como um café que passou por remoção prévia de casca, polpa ou mucilagem.

Isso significa que não existe um único “tempo de secagem” válido para todo café.

Clima, processamento, espessura das camadas, estrutura usada, circulação de ar, temperatura e umidade inicial mudam o ritmo do processo.

O relógio da secagem também varia.

A água precisa sair — mas não de qualquer maneira

A operação parece ter um objetivo simples:

reduzir a umidade.

O problema está em como isso acontece.

Se determinadas partes da massa secam mais rapidamente que outras, o lote pode terminar com grãos em condições diferentes.

Se o calor é excessivo, podem ocorrer danos físicos e fisiológicos.

Se a retirada de água é lenta demais em ambiente desfavorável, o café pode permanecer por tempo excessivo em condições favoráveis a fermentações indesejáveis e atividade microbiana.

Estudos brasileiros sobre diferentes formas de processamento e secagem registram alterações na integridade celular, em componentes químicos e na qualidade do café quando os grãos são submetidos a condições de secagem mais agressivas. A elevação da temperatura, em particular, aparece associada a danos e redução de qualidade nas condições estudadas.

Por isso, secar bem não significa simplesmente retirar água o mais depressa possível.

Significa retirar água sem ultrapassar a capacidade do produto de suportar aquela operação.

Terreiro é uma operação, não um lugar onde o café espera

No terreiro, o café não deve simplesmente ser espalhado e abandonado ao sol.

A distribuição das camadas, o acompanhamento do clima e o revolvimento fazem parte do processo.

O revolvimento redistribui os frutos ou grãos e procura aumentar a uniformidade da exposição ao ar e à energia solar.

Sem ele, partes da massa podem permanecer mais úmidas, enquanto outras avançam mais rapidamente na secagem.

Orientações técnicas de pós-colheita recomendam revolvimento frequente justamente para favorecer uma secagem mais uniforme.

Isso ajuda a explicar por que o terreiro exige atenção constante.

A operação depende da interação entre café e ambiente.

Sol, temperatura, vento, umidade relativa e possibilidade de chuva mudam ao longo do dia.

E o produtor precisa responder a essas mudanças.

O café não está simplesmente parado no terreiro.

Está atravessando uma transformação.

Quando o café sai do chão

O terreiro suspenso parte do mesmo princípio de exposição ao ambiente, mas altera a relação entre o café e a superfície.

Em estruturas elevadas, o produto fica afastado do solo e pode receber circulação de ar também pela parte inferior.

Isso pode favorecer ventilação e facilitar determinados controles de camada e manejo.

Mas a existência de uma estrutura suspensa não transforma automaticamente qualquer processo em secagem perfeita.

Ainda será necessário acompanhar espessura da camada, revolvimento, condições climáticas e avanço da perda de umidade.

O equipamento pode melhorar determinadas condições.

Não substitui o controle.

Essa distinção é importante porque tecnologias de pós-colheita frequentemente são apresentadas como se o simples uso de determinada estrutura garantisse qualidade.

Não garante.

Qualidade depende da forma como o sistema é conduzido.

Terreiro e secador não são adversários

Em muitas propriedades, a discussão não deveria ser “terreiro ou secador”.

Os dois podem fazer parte da mesma estratégia.

Documentação técnica brasileira descreve sistemas em que o café passa primeiro por uma pré-secagem e depois segue para secagem mecânica ou para sistemas com ar natural.

A combinação pode reduzir a carga de água antes de o produto entrar em determinadas estruturas e tornar o processo mais eficiente.

O secador mecânico oferece vantagens importantes.

Ele reduz dependência direta das condições meteorológicas e pode aumentar a capacidade operacional da propriedade.

Em períodos chuvosos ou com grande volume de café chegando ao pós-colheita, isso pode ser decisivo.

Mas o maior controle também traz responsabilidade.

Temperatura, fluxo de ar, carga, tempo de operação e características do café precisam estar compatíveis.

Uma máquina permite interferir mais no processo.

Também permite errar mais rapidamente.

Calor demais também cobra preço

Um dos riscos da secagem mecânica é imaginar que aumentar a temperatura simplesmente encurta o processo sem consequências.

A literatura técnica brasileira é cautelosa nesse ponto.

Estudos experimentais relacionam condições mais severas de temperatura durante a secagem a alterações físicas, químicas e de qualidade nos grãos.

Mais importante que decorar um único limite é compreender o princípio:

o café tem uma capacidade limitada de suportar calor durante a retirada de água.

Temperatura excessiva pode provocar danos internos antes que qualquer alteração seja visível externamente.

Por isso, em sistemas mecânicos, não basta observar apenas a temperatura do ar que entra no secador.

A condição da própria massa de café importa.

E isso exige acompanhamento.

Quando está seco o suficiente?

Em estudos e recomendações técnicas brasileiras, o café destinado ao armazenamento aparece frequentemente na faixa aproximada de 11% a 12% de umidade em base úmida.

Essa faixa é importante porque o café precisa chegar ao armazenamento suficientemente seco para reduzir riscos de deterioração.

Mas existe uma armadilha:

o valor médio não conta toda a história.

Uma medição média pode indicar uma faixa adequada e, ainda assim, esconder diferenças de umidade dentro do lote.

Por isso, medir umidade é fundamental, mas interpretar essa medição também é.

O objetivo não é apenas atingir um número.

É chegar a ele com um lote suficientemente uniforme para permanecer estável.

Secar rápido demais também pode criar diferenças

A água não abandona simultaneamente todas as partes do fruto ou do grão.

Durante a secagem, sua distribuição muda continuamente, enquanto o ambiente remove parte dessa água.

É uma das razões pelas quais acelerar o processo sem controle pode produzir resultados diferentes de uma secagem conduzida sob condições mais moderadas.

Em termos simples:

secar é administrar a retirada de água, não apenas provocar sua evaporação.

Essa talvez seja uma das razões pelas quais uma operação aparentemente elementar exige tanta experiência.

Depois da secagem, ainda pode haver equalização

Dependendo do sistema adotado, o café pode passar por um período de repouso antes do beneficiamento.

Entre as finalidades desse intervalo está favorecer a redistribuição da umidade no lote antes das operações seguintes.

Isso ajuda a lembrar que o término da secagem não transforma instantaneamente o café em um produto indiferente às condições do ambiente.

A transição para armazenamento e beneficiamento continua exigindo cuidado.

O armazenamento pode desfazer parte do trabalho

Um café bem seco ainda pode perder qualidade se for armazenado em condições ruins.

A umidade relativa do ar, a temperatura do ambiente, a circulação de ar, as embalagens e o contato com superfícies inadequadas interferem na conservação.

O café é higroscópico: ele pode trocar umidade com o ambiente.

Se permanecer em local muito úmido, pode reabsorver água.

Se isso acontecer, parte da estabilidade obtida durante a secagem começa a ser perdida.

Documentação técnica e estudos de armazenamento mostram que condições inadequadas podem provocar perdas de qualidade e alterações no café ao longo do tempo.

Estudos brasileiros também mostram que o armazenamento modifica características físicas e químicas do café e que condições anteriores de processamento e secagem continuam influenciando sua evolução.

Ou seja:

a secagem prepara o café para ser armazenado.

O armazenamento precisa respeitar aquilo que a secagem construiu.

O erro pode reaparecer meses depois

Uma falha de secagem nem sempre produz um sinal imediato e evidente.

O café pode parecer aceitável visualmente.

Depois, durante armazenamento, beneficiamento, torra e preparo, determinadas alterações começam a aparecer.

Isso não significa que todo defeito sensorial possa ser diagnosticado retrospectivamente como “erro de secagem”.

Seria simplificar demais.

Mas condições inadequadas de secagem podem favorecer deterioração, atividade microbiana, alterações celulares e químicas e perda de estabilidade.

Esses efeitos ajudam a explicar por que diferentes formas de secagem podem produzir resultados posteriores diferentes na qualidade do café.

É por isso que uma operação aparentemente distante da xícara continua ligada a ela.

A bebida é resultado de uma sequência.

O erro cometido numa etapa não desaparece apenas porque as etapas seguintes foram bem executadas.

A secagem não cria sozinha um grande café

Um café colhido fora do ponto não se transforma em extraordinário porque foi perfeitamente seco.

Um lote mal processado não é corrigido magicamente por um bom secador.

A secagem não possui esse poder.

Sua responsabilidade é outra.

Preservar, estabilizar e conduzir adiante aquilo que chegou até ela.

Quando bem realizada, talvez passe quase despercebida.

O lote segue seu caminho.

Quando mal conduzida, pode comprometer meses ou anos de trabalho anterior.

É por isso que chamar a secagem de uma etapa intermediária é pouco.

Ela funciona como uma espécie de fronteira.

Antes dela, o café ainda contém água suficiente para permanecer altamente instável.

Depois dela, se tudo foi bem conduzido, começa uma etapa em que o lote pode ser guardado e movimentado com muito mais segurança.

A etapa silenciosa

Quando olhamos para um terreiro cheio de café, talvez a primeira impressão seja de tranquilidade.

O café está ali.

O sol trabalha.

O tempo passa.

Mas aquela aparente espera contém decisões o tempo inteiro.

Espalhar.

Revolver.

Observar.

Medir.

Recolher.

Secar mais.

Secar menos.

Transferir.

Esperar.

Armazenar.

O objetivo parece simples: retirar água.

A responsabilidade é muito maior.

A secagem não precisa criar a qualidade que chegou da lavoura.

Precisa impedir que ela seja perdida.

É por isso que essa talvez seja uma das etapas mais fáceis de subestimar em toda a cadeia.

Ela não tem a dramaticidade da colheita.

Não tem o perfume da torra.

Não tem a recompensa imediata da xícara.

Mas está entre todas elas.

O café pode passar dias secando. As consequências dessa secagem podem acompanhá-lo por meses.

secagempós-colheitaumidadequalidadeterreirosecadorarmazenamento

Autoria

Redação Café em Pauta

Análise editorial · Café em Pauta. Conteúdo produzido pela redação, com identificação das fontes utilizadas na apuração quando a matéria depende de informações externas.

Mais em Do Grão à Xícara

Frutos maduros em lavoura de café — a colheita abre uma nova etapa na preservação do potencial construído no campo.
Reportagem

Da terra à xícara

O caminho do café brasileiro, das decisões tomadas na lavoura ao preparo que transforma o grão em bebida

Redação Café em Pauta · 11 min

Lavouras em áreas montanhosas exigem que implantação, manejo e colheita sejam adaptados às condições do relevo.
Do Campo

Cafeicultura de montanha: o desafio da encosta

Em terrenos inclinados, produzir café exige adaptar máquinas, manejo, colheita e conservação do solo — enquanto relevo, altitude e ambiente também participam, sem fórmulas simples, da construção da qualidade.

Redação Café em Pauta · 10 min

A classificação reúne diferentes observações sobre uma amostra de café, da avaliação física dos grãos às características da bebida.
Do Grão à Xícara

Como o café é classificado antes de ser vendido

Tipo, peneira, defeitos e bebida descrevem dimensões diferentes de um lote. Entender como elas se relacionam ajuda a compreender o que acontece quando o café deixa de ser apenas grão e passa a ter uma identidade comercial.

Redação Café em Pauta · 13 min

Ver toda a editoria